Tenho feito alguns registos de acontecimentos relacionados com a minha mãe (parece uma obsessão mas tem a ver com a minha forma de ser e estar, gosto de diários), mas porque às vezes envolve emoções muito fortes, não tenho palavras para os descrever.
Irei transcrever um excerto de um desses meus registos, reporta à data de 4 de Julho de 2005:
" Hoje tem estado muito calma. Aceitou bem a ida do meu pai à sua antiga casa, a única obcessão foi em relação ao mercado de roupa que viu no sábado; repetiu que tinhamos de ir lá, quando eu já referira várias vezes que só no sábado seguinte.
Deitei-me com ela, para dormir uma sesta, adormeceu de imediato.
Creio que o ideal é mantê-la afastada de conversas que envolvam stress, tomadas de decisão como tem sido a compra de uma casa para viverem perto de mim. Agora nunca mais falou nisso, foi como já não tivesse memória do assunto.
Por causa dessas conversas ao pé dela, quiz por 2 vezes ir embora, fazendo até a mala e preparando-se para sair, contudo, não sabia para onde ia. Chorou muito, sentindo-se mal mas não conseguia definir a razão.
Pergunta várias vezes ao dia, por pessoas do seu tempo e refere-se a situações vividas comigo, como se tivessem acontecido com outra pessoa".
Outro dia estive a ler no site da Associação dos Amigos e Doentes de Alzheimer (sediada em Lisboa, infelizmente) e li um testemunho de alguem, que ainda está no início da doença e identifiquei muito daqueles estados de alma com o que a minha mãe nos ia dizendo, contudo nunca os relacionámos com uma doença destas.
Passo a transcrever para aqui esse testemunho:
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Shelia, uma senhora num estádio inicial da Doença de Alzheimer fez este testemunho:
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“Eu estou a conseguir viver razoavelmente bem, grande parte do tempo eu não penso no meu problema de memória. Agora, vou passar a contar o que me incomoda...
Incomoda-me ter pedido à minha filha para ela levar as minhas roupas para as secar na máquina da casa dela. Ela não se importou, mas, depois de ela se ter ido embora, eu apercebi-me que tenho a minha própria máquina de secar roupa a qual tenho vindo a utilizar há já três anos.
Eu decidi colocar uma pequena prateleira na parede do meu quarto. Fui buscar a minha caixa de ferramentas, ao abri-la para procurar parafusos e um martelo, encontrei umas jóias, que há muito procurava.
Um dos problemas de ter fraca memória é a incrível quantidade de tempo que se despende na procura de coisas ou a tentar lembrarmo-nos onde as colocámos.
A minha filha contou-me que eu costumo telefonar-lhe para perguntar algo e, poucos momentos depois, volto a ligar para perguntar-lhe a mesma coisa.
Se necessito de telefonar a alguém, eu posso ir em direcção ao telefone e subitamente esquecer-me do que ia fazer.
Por vezes tenho dificuldades em encontrar certas palavras, quando isto acontece tento usar uma que a substitua e outras vezes não hesito em perguntar o nome dos objectos.
Esta última semana tem sido um pouco desencorajadora. Ultimamente, tenho ido às compras sem nunca levar dinheiro. No passado eu dirigir-me-ia ao Banco, mas, desta vez, eu fui às compras várias vezes e sem nunca levar dinheiro.
Já passei por situações embaraçosas, tantas, que até já pensei mudar de Banco. Ontem foi um pesadelo. Quando me dirigi ao balcão para depositar um cheque, este havia desaparecido. Olhei para o chão e para dentro da minha mala para ver se o conseguia encontrar, mas em vão.
Quando cheguei a casa e procurei na minha secretária, encontrei, para meu espanto, um recibo de depósito do cheque de que tinha andado à procura. Eu tinha depositado o cheque no dia anterior.
O pior dos sentimentos é não poder confiar em mim própria.
Ontem fui às compras e deixei as chaves no carro com o motor ligado. Eu já tive de arrombar o meu carro tantas vezes que a porta está praticamente arruinada.
Possuo uma chave extra, e tudo o que tenho a fazer é lembrar-me de a levar comigo e não a deixar dentro do carro com a porta trancada.”
Fonte:
Alz.co.uk
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